A pressão judicial está desgastando o ativismo climático mais radical da Espanha, com ativistas e pesquisadores descrevendo longos processos judiciais, investigações por organização criminosa e multas como uma força desmobilizadora mesmo quando os juízes absolvem ou impõem penas leves. Alba del Río, 25 anos, do Futuro Vegetal, disse antes de uma audiência recente que ativistas realizam protestos pacíficos para chamar atenção para a emergência climática, mas são tratados como se fossem terroristas.

O caso de Del Río desta semana dizia respeito a uma ação no aeroporto de Barajas, onde ativistas colaram-se ao asfalto. Eles foram acusados de desordem pública, dano e crimes contra a segurança aérea. O juiz absolveu os três réus — dois ativistas e um jornalista —, mas uma possível multa administrativa de € 90.000 continua pendente, enquanto a polícia continua a investigar o grupo como organização criminosa. Del Río também colou-se à moldura de uma “maja” de Goya no Museu do Prado e protestou na tribuna do Congresso.

O caso é um exemplo de como a ação policial e as multas estão desativando o ativismo climático, inclusive em grupos mais estabelecidos, como Greenpeace e Ecologistas en Acción. Os tribunais geralmente absolvem os réus ou aplicam penas leves, mas processos que duram anos desencorajam um movimento que era altamente ativo até recentemente.

A onda recente começou em 2018 com o Fridays for Future, inspirado por Greta Thunberg, e levou a manifestações em massa em muitos países. Após a pandemia, grupos como Futuro Vegetal, Rebelión Científica e Extinction Rebellion passaram a ações mais disruptivas — bloqueios de estradas, tinta e interrupções em aeroportos — para criticar a inação diante da mudança climática. Dorte Fischer, socióloga política da Universidade de Trento que estuda a criminalização desses ativistas, disse que a resposta do Estado foi além do policiamento. Em toda a Europa, disse ela, o confronto passou das ruas para os tribunais, com detenções, grandes multas e processos criminais, e promotores às vezes pedindo anos de prisão por protestos não violentos. Ela citou Roger Hallam, cofundador do Just Stop Oil, condenado a quatro anos no Reino Unido por ajudar a organizar protestos em rodovias, e membros do Last Generation da Alemanha processados sob suspeita de formar uma organização criminosa, semelhante à acusação que o Futuro Vegetal enfrenta na Espanha.

Luz Muñoz, professora da Universidade de Barcelona que pesquisa com Fischer, disse que a repressão pode atingir qualquer ativista. A possibilidade de prisão e os efeitos sobre o trabalho e a família fazem os ativistas reconsiderarem ações, produzindo um “efeito de congelamento” nos protestos, disse ela.

Na Espanha, um dos primeiros protestos de alto impacto ocorreu em outubro de 2019, quando cerca de 200 pessoas cortaram a ponte Joaquín Costa sobre a Castellana, em Madri. A polícia acusou três participantes de resistência à autoridade, e o julgamento foi realizado recentemente. Os promotores pediram 10 meses de prisão por aquilo que os réus disseram serem falsas acusações de agressão a policiais. Eles acabaram multados em € 270, mas recorreram porque a pena deixaria antecedentes criminais. Um deles, Jorge Riechmann, professor de filosofia da Universidade Autônoma de Madri, disse que o processo era parte de um obstáculo mais amplo à ação ambiental pacífica. Outra ré, Marina, que não deu o sobrenome, disse que era sua primeira manifestação ambiental e que ela havia esvaziado sua vontade de protestar.

Paco del Pozo, do Greenpeace, também esteve envolvido em um caso sobre uma ação no porto de Sagunto, em Valência, destinada a bloquear um navio de gás dos EUA. Os promotores pediram cinco anos de prisão para cada réu, mas um juiz recentemente os absolveu. Del Pozo disse que enfrentou três julgamentos em um ano intenso e viveu com a respiração suspensa porque anos de espera e altos pedidos de prisão criam incerteza. Ele argumentou que a repressão a movimentos ambientais e sociais está aumentando.

Outros casos terminaram com multas. Ativistas jogaram tinta vermelha biodegradável na fachada do Congresso em 2022 e 2023. Na única ação julgada, a acusação pediu quase dois anos de prisão, mas o juiz impôs uma multa de € 1.400 a quatro réus por dano ao patrimônio histórico. Mauricio Misquero, que participou de ações com Rebelión Científica e Futuro Vegetal, disse que a repressão tem sido um fator importante para desativar tais protestos, embora também tenha dito que o tema perdeu parte da atualidade à medida que habitação, Palestina e outras causas sociais recebem mais atenção. Ele tem outros dois casos pendentes e abandonou esse tipo de ação.

Chavi Vicente, porta-voz do Rebelión o Extinción, disse que as autoridades estão usando a “ley mordaza” para impor multas sem julgamentos, incluindo sanções de € 600 por colocar uma faixa na rua, e estão prolongando julgamentos por cinco ou seis anos, o que desmobiliza as pessoas. O coletivo ainda tem muitos processos pendentes.

Javier Raboso, do Greenpeace, descreveu uma “pena de banquillo” — tempo passado no banco dos réus — que dura quatro ou cinco anos e leva ativistas a parar de protestar. Javier Andaluz, do Ecologistas en Acción, disse que os processos judiciais inibem as pessoas de participar de mais protestos e acarretam um enorme custo emocional. Riechmann disse que os processos legais são um forte obstáculo às ações ambientais pacíficas necessárias e que o protesto climático diminuiu acentuadamente nos últimos anos à medida que a situação do planeta piora.

A Anistia Internacional também criticou a resposta das autoridades. Daniel Canales disse que há criminalização do protesto pacífico e da desobediência civil, pedidos de pena cada vez mais severos e processos criminais que se arrastam por anos. A organização exige a revogação da ley mordaza e mudanças no Código Penal para garantir o direito ao protesto pacífico.

O artigo remonta a tática radical a 2022, quando dois ativistas do Futuro Vegetal colaram-se às molduras das “majas” de Goya no Prado, trazendo para a Espanha uma forma de protesto lançada pelo Just Stop Oil no Reino Unido. As ações tinham a intenção de incomodar e provocar reflexão, não de danificar o patrimônio, embora ativistas tenham danificado uma pintura no Museo Naval. Quatro anos depois, a investigação policial sobre o grupo como organização criminosa desativou o movimento, segundo o fundador Bilbo Basaterra. Ele disse que a acusação e os casos judiciais consomem energia e desencorajam novos ativistas de se juntar.

Outra fundadora, Victòria Domingo, foi absolvida no caso de Barajas e enfrenta outro julgamento na próxima semana por jogar tinta vermelha na Delegacia do Governo em Barcelona. Ela disse que a repressão prejudicou o coletivo, especialmente a acusação de organização criminosa e as infiltrações policiais. Ela criticou as autoridades por reprimirem aqueles que alertavam sobre desastres climáticos como danas, incêndios e ondas de calor em vez de agirem diante da emergência. O Futuro Vegetal ainda enfrenta casos sobre protestos no aeroporto de Ibiza, a ação da pintura de Goya, ações na Subdelegacia do Governo em Córdoba e na cúpula de Granada, além da investigação por organização criminosa.

Domingo disse, após a absolvição, que o grupo acumulou 140 horas em detenções e celas de custódia e que ativistas são tratados com violência para impedi-los de protestar. Del Río concluiu que as pessoas estão perdendo a vontade de protestar e que o custo psicológico é enorme, acrescentando que se sente impotente porque nada está sendo feito para deter as mudanças climáticas.

Fontes: El País Sociedad.