Um retiro de meditação durante a noite levou o oftalmologista Robert M. Kinast a refletir sobre o peso emocional de tratar lesões oculares graves e sobre as maneiras como mantinha à distância o sofrimento dos pacientes. Ele escreve que a meditação e a autoindagação o ajudaram a estar mais presente no atendimento aos pacientes.
Kinast, que trabalha em Portland, no Oregon, participou de um retiro nas montanhas de Santa Cruz no outono passado, na esperança de fazer uma pausa no trabalho. Durante uma meditação noturna, a expressão “virar a noite” trouxe à mente não a faculdade ou a vida social, mas os casos traumáticos que havia tratado: pacientes cujos olhos foram danificados por tiros, violência nas ruas e acidentes envolvendo objetos como facas, fogos de artifício e para-brisas.
Os oftalmologistas costumam ser chamados à noite para tentar reparar olhos rompidos, às vezes com pouca esperança de salvar a visão. Kinast descreve o trabalho como algo que exige precisão, rapidez e resistência, enquanto cuida dos pacientes e lidera uma equipe exausta no centro cirúrgico.
Ele diz que às vezes se retirava para um vestiário ou banheiro para chorar depois de presenciar lesões. Diante dos pacientes, tentava conter as emoções, preocupado que demonstrar aflição pudesse abalar a confiança deles. Embora acreditasse que alguns pacientes talvez não quisessem ver o cirurgião chorar antes de uma operação, acabou reconhecendo que também se tornar insensível limitava sua capacidade de processar o trauma.
Durante a meditação noturna do retiro, Kinast percebeu que não havia reservado plenamente espaço para lamentar as perdas e os danos que presenciara. Enquanto os outros se juntavam a um cântico meditativo ao amanhecer, ele se sentou à parte e chorou suas perdas. Ele diz que essa experiência despertou gratidão e respeito pelos médicos que cuidam de pacientes traumatizados, incluindo oftalmologistas que trabalham ao lado de médicos de emergência e cirurgiões de trauma.
Kinast escreve que a meditação o ajudou a distinguir a abertura emocional da contenção rígida à qual recorria para parecer forte. Com o tempo e a atenção consciente, diz ele, passou a ter menos medo de ser tomado pelo sofrimento dos pacientes e tornou-se mais capaz de permanecer presente com eles.
Desde o retiro, ele adotou um ritual simples de ancoragem na clínica: quando se senta em uma sala de exame, percebe os pés no chão. Ele descreve voltar a atenção ao presente depois de se distrair ou se sentir sobrecarregado como parte da prática, e diz que cada paciente oferece uma oportunidade para isso.
Kinast diz que os plantões de trauma continuam sendo sua parte menos favorita da medicina, embora muitas vezes sejam a mais significativa. Ele atende pacientes com lesões oculares traumáticas algumas vezes por ano e reconhece que médicos de outras especialidades encontram esse tipo de sofrimento todos os dias. Ele encerra agradecendo aos médicos e cirurgiões de trauma que cuidam de pacientes com lesões devastadoras.
Fontes: STAT News.